Sunday, October 21, 2007

o amor é lindo

estou apaixonado pela mesma mulher há quarenta anos. se minha esposa descobrir, vai me matar.
henry youngman

Saturday, October 13, 2007

veja bem

a única coisa em que acredito é que precisamos ter capacidade de destruir as opiniões contrárias, baseados em argumentos ou, senão, deixar que as opiniões se expressem. opinião que precisamos destruir na porrada é opinião que leva vantagem sobre nós. não é possível destruir as opiniões na porrada e é isso precisamente que mata todo o desenvolvimento da inteligência...che(guevara)

Wednesday, December 27, 2006

metal leve

paulo coelho é o bispo edir macedo da literatura.
josé mindlin.

Sunday, December 24, 2006

con hurras!

vamos a festejarlo, vengan todos
los inocentes
los damnificados
los que gritan de noche
los que sueñan de día
los que sufen el cuerpo
los que alojan fantasmas
los que pisan descalzos
los que blasfeman y arden
los pobres congelados
los que quieren a alguien
los que nunca se olvidan
vamos a festejarlo, vengan todos
el crápula se ha muerto
se acabo el alma negra
el ladrón
el cochino
se acabo para siembre
hurra
que vengan todos, vamos a festejarlo
a no decir
la muerte
siempre lo borra todo
todo lo purifica
cualquier día
la muerte no borra nada
quedan
siempre las cicatrices
hurra
murió el cretino, vamos a festejarlo
a no llorar de vicio
que lloren sus iguales
y se traguen sus lágrimas

se acabo el monstruo prócer
se acabo para siempre
vamos a festejarlo
a no ponernos tibios
a no creer que este
es un muerto cualquiera
vamos a festejarlo, a no volvernos flojos
a no olvidar que este
es un muerto de mierda.

(obituario com hurras, do poeta uruguaio mario benedetti a propósito da morte de reagan; e por tabela dedicado a galtieri, pinochet, fidel?



Sunday, December 03, 2006

equívoco acertado

o jornalismo é uma profissão cujo objetivo "filosófico" é trazer à tona certas coisas que as pessoas não sabem. tem um compromisso com a verdade. agora, qual é o objetivo "filosófico" da publicidade? a mentira. é mentir sobre o sabonete, a maionese, a margarina, o político. fazer anúncio sobre seguro médico é uma ofensa. fico envergonhado ao ver que os bancos estão tomando dinheiro dos velhinhos e os atores da globo anunciam isso. os velhinhos pegam o dinheiro e pagam juro antecipado! é uma indecência. e por que o estado tem de fazer publicidade? o que o ministério da saúde precisa é divulgar o calendário das vacinas, coisas assim. não tenho respeito pela publicidade. os caras ficam aí se gabando de que sabem fazer slogans e passam anos para criar coisas como "coca-cola. é isso aí". de quantos slogans precisam? faço dez agora. millor fernandes

Tuesday, November 28, 2006

da civilizatória sanha

"Os europeus descobriram na América uma porção de homens descobertos e logo trataram de cobri-los".

Desejei conhecer o Mundo Novo, repleto de liberdade, dádivas e encantamento. Mas o Mundo Velho está no meu sangue, carrega-me feito um rio sujo e lamacento. Nas pequenas ações cotidianas me policio para evitar as manifestações dessa maldição européia. Mas nas próprias expressões da fala e da escrita percebo a ansiosa herança de meus ancestrais.

Quando falam da Europa e de seu conforto material, e eu aqui na selva catando moedas para pagar a conta de água e luz, sinto-me quase livre dessa onda negra que varreu continentes, devastou civilizações e jamais pediu perdão.

Como pode um ser almejar a paz e o conforto antes de alcançar o perdão de seus oprimidos e desgraçados? Não pode, é o que dizem as fibras do meu insólito entendimento. A Europa e suas adjacências permanecem falando de castigo e diabos, apoiando tiranias, como nos velhos tempos, adorando supostos representantes do deus da humildade trajados de seda e incrustados de pedrarias, enquanto no mundo selvagem os pássaros cantam todas as manhãs, livres de Jeová e das pregações insanas de seus profetas.

A Natureza é dura e cruel para com os atores do teatro humano. Ela quer, e vai tirar nossas máscaras, apesar da fanática resistência. Um siriri cantando livre, sentado no tronco seco da guabiroba, nu e desprovido de toda crença e de toda posse, é uma ofensa para o espírito europeu disseminado nessas plagas. O polonês e o italiano que correm em meu sangue invejam a majestade despojada do siriri.

Vejo nos filmes como se amarravam em roupas os nossos ancestrais, a cada século mais amarfanhados para esconder as vergonhas, e ainda hoje nos amarramos em novos e sofisticados andrajos. Criaturas amaldiçoadas, talvez, pelos nossos próprios pecados seculares, e a cada ano promovemos a queda e o sofrimento de novos inocentes. Orgulhamo-nos de nossas conquistas, do domínio sobre os que não sabiam brigar e das vastidões que devastamos.

Olhamos lá atrás, na descoberta das Américas, nossos ancestrais furiosos sedentos de glória. Mas olhem Bush, em que difere do velho europeu conquistador? Por que a Europa apoiou as sandices desse novo Hitler? Porque ele representa o que somos, a nossa européia incapacidade de buscar conforto sem derramamento de sangue. Entregamo-nos à velha insana sede de conquista, à realização material sustentada em esqueletos. Olhem as grandes corporações e digam onde está a diferença com os velhos feudos europeus, sustentados em mentiras, mitos e escravidão!

A civilização ocidental não se compreendeu, não pediu perdão por seus crimes e não se perdoou. Assenta-se em conquistas materiais, feito uma galinha alucinada tentando chocar um ovo gorado. Ela quer, a todo custo, gerar o Homem Novo, mas ele não sairá deste ninho. Não sairá de um tubo de ensaio, muito menos de uma enciclopédia. A Natureza aguarda o sincero e honesto pedido de perdão, antes de conceder o reencontro do conhecimento humano com a verdade.

Podemos esperar a re-ligação, a religião da verdade, para um tempo futuro, quando esta adolescente humanidade estiver madura e surrada o bastante para saber-se limitada às margens da Deusa Natureza.

admirável mundo velho, do chico guil, pra carta capital

Sunday, November 05, 2006

slogan definitivo

há uma morte no seu futuro. millor fernandes.

Monday, October 30, 2006

camisa de força ou correa na lucidez

primeiro a gente enlouquece e depois vê no que dá.
thomaz souto correa

Saturday, October 21, 2006

aos que virão depois de nós

Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez,
Uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses,
Quando falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
Já está então inacessível aos amigos
Que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nada do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Ma como é que posso comer e beber,
Se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
Se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.

Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Manter-se afastado dos problemas do mundo
E sem medo passar o tempo que se tem para viver na terra;
Seguir seu caminho sem violência,
Pagar o mal com o bem,
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!

II

Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
Quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo da revolta
E me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
Deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atenção
E não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a terra.

III

Vocês, que vão emergir das ondas
Em que nós perecemos, pensem,
Quando falarem das nossas fraquezas,
Nos tempos sombrios
De que vocês tiveram a sorte de escapar.

Nós existíamos através da luta de classes,
Mudando mais seguidamente de países que de sapatos, desesperados!
Quando só havia injustiça e não havia revolta.

Nós sabemos:
O ódio contra a baixeza
Também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
Faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
Que queríamos preparar o caminho para a amizade,
Não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
Em que o homem seja amigo do homem,
Pensem em nós
Com um pouco de compreensão.








Bertold Brecht

(originalmente publicado no cemgrauscelsius.blogspot.com em 21 de fevereiro de 2006)

Monday, October 16, 2006

mas que filho da puta!

o pequeno filho-da-puta
é sempre
um pequeno filho-da-puta;
mas não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho-da-puta.
no entanto, há
filhos-da-puta
que nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho-da-puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o pequeno filho-da-puta.
o pequeno
filho-da-puta
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno filho-da-puta.
no entanto,
o pequeno filho-da-puta
tem orgulho em ser
o pequeno filho-da-puta.
todos os grandes filhos-da-puta
são reproduções em
ponto grande
do pequeno filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
dentro do pequeno filho-da-puta
estão em ideia
todos os grandes filhos-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
tudo o que é mau
para o pequeno
é mau para o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
o pequeno filho-da-puta
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o pequeno filho-da-puta.
é o pequeno
filho-da-puta
que dá ao grande
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
de resto,
o pequeno filho-da-puta vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande filho-da-puta:
o pequeno filho-da-puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja, o pequeno filho-da-puta.

II
o grande filho-da-puta
também em certos casos começa
por ser
um pequeno filho-da-puta,
e não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
no entanto, há
filhos-da-puta
que já nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho-da-puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o grande filho-da-puta.
o grande
filho-da-puta
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho-da-puta.
por isso
o grande filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o grande filho-da-puta.
todos
os pequenos filhos-da-puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
dentro do
grande filho-da-puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
o grande filho-da-puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho-da-puta.
é o grande
filho-da-puta
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o pequeno filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
de resto,
o grande filho-da-puta vê
com bons olhos
a multiplicação
do pequeno filho-da-puta:
o grande filho-da-puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja, o grande filho-da-puta.

ditirâmbica do pequeno e do grande filho da puta do alberto pimenta

Sunday, October 08, 2006

de cu pra cima

o que os presidentes não fazem com suas esposas, acabam fazendo com o país.
mel brooks

Saturday, October 07, 2006

como somos infelizes

infeliz do país que necessita de heróis.
bertold brecht

Sunday, October 01, 2006

corpo de delito ou intenções de voto

qualquer coisa obrigada, seja tomar lambedor, gemada ou pau no cu, fere o exercício, já agora pseudo-democrático de toda e qualquer democracia pseuda, do chamado voto livre.

enquanto nos obrigarem a fazer aquilo que é por dever de consciência nossa obrigação, ou não, não se pode pode falar em eleições livres, em pátrias livres, em espíritos livres, em suma: em homens(e mulheres) livres.

Friday, September 29, 2006

quanto anos mesmo de perdão ?

completamente falso o entendimento de que há uma superpopulação de bandidos na cadeia. a superpopulação anda cá fora.

Sunday, September 24, 2006

palavras do senhor marquês

…. que vejo eu no deus deste culto infame senão um ser inconsequente e bárbaro, que hoje cria um mundo de cuja construção amanhã se arrepende ? que vejo eu nele senão um ser fraco, incapaz de fazer o homem dobrar-se para o lado que ele quer ? esta criatura, apesar da vinda dele, domina-o; pode ofendê-lo e por isso merecer suplícios eternos! que ser tão fraco é esse deus! então ele pôde criar tudo o que vemos e lhe é impossível formar um homem conforme a sua vontade ? mas, responder-me-eis, se o tivesse criado assim, o homem não teria mérito? que coisa insípida! que necessidade há que o homem tenha mérito diante de deus? se o tivesse formado totalmente bom, aquele jamais poderia praticar o mal e só então é que seria obra digna de deus. deixar ao homem a escolha é tentá-lo. ora, deus, pela sua presciência infinita sabia bem o que daí ia resultar. a partir desse momento, é portanto por prazer que condena à perdição a própria criatura que formou. que deus horrível, esse! que monstro, que celerado, tão digno do nosso ódio e da nossa implacável vingança! todavia, mal contente com tão sublime ação, afoga o homem para depois o converter: fá-lo arder, amaldiçoa-o. nada disto o modifica.


sade, in a filosofia na alcova ou os preceptores morais, nos anos 80, em edição da gama.

Friday, September 22, 2006

manuel bandeira

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
Não quero mais saber do lirismo que não é libertação

(viagem ao âmago da palavra)

Wednesday, September 13, 2006

eu como o sou

palavras, elas foram feitas muito mais pra esconder do que pra revelar.

na terra dos maus-caracteres

“ o que convencionamos chamar de “bom caráter” , no brasil, é o homem anódico, quase sempre sem gosto literário ou artistico, que não griga, não tem opiniões próprias, não toma responsabilidades, sorri gravemente, cumprimenta com austeridade, procura ganhar a vida sem aborrecer os ourtros, logrando na aparente doçura irritar o menos possível, não suscitar reação, seguindo os caminhos abertos pelos outros, ou ficando no seu canto, com boa cara e postura sossegada. lutou, perdeu o caráter”.

gilberto amado in a chave de salomão e outros escritos

Monday, September 11, 2006

jesus é fiel ?

o amigo nunca é fiel. só o inimigo não trai nunca. o inimigo vai cuspir na cova da gente. nélson rodrigues.

Thursday, September 07, 2006

carunchos e tatus cósmicos

As coisas impossíveis chamam como sinos de algum ponto da eternidade.
Ressonam em meus ouvidos como símbolo de esperança de que as alcance.

Quando você chegou, a humanidade existia há alguns milhões de anos. O mundo já estava carunchado, todo cheio de buracos. É difícil admitir, mas os carunchos somos nós.

Acreditamos que somos uma “raça cósmica”, viemos de outro planeta, e talvez por que não nos sentirmos comprometidos com a Terra é que a perfuramos, raspamos sua superfície, poluímos os ares, esburacando a esfera feito tatus em busca de ouro, dólares e felicidade. Mais que carunchos, somos grandes tatus cósmicos. As marcas de nossa sabedoria obtusa já se tornaram visíveis. Devastamos os continentes, matamos os bichos, cortamos e queimamos as árvores e agora despejamos todo o lodo de nossa civilização nos oceanos. Somos a espécie mais cruel, sanguinária e apavorada que já pisou este asteróide singelo, e em nome deste pavor estamos nos preparando para lhe dar fim. Depois de acabarmos com tudo aqui, fugiremos numa grande nave espacial, guiada por um sujeito chamado Búfalo Bush, o novo Noé!!

Somos essa mistura atômica, essa massa batida de poeira estelar, esses biscoitos andantes, fazedores de totens, adoradores do Ausente, engenheiros do absurdo, arquitetos do futuro, compositores do gozo e da dor. Somos capazes de levantar monumentos ao que haja de mais terno e singelo, como também podemos nos fazer em pedra e massacrar nossa própria espécie, como você verá nos documentários sobre as guerras e nos jornais de todo dia.

Mas apesar de todas as asneiras que cometemos, estamos aqui, com esse sentimento de que é preciso continuar vivendo.

Alguns de nossos semelhantes costumam encarar a vida como “algo” controlado por forças divinas, de entidades invisíveis, de mundos fora do nosso. Para eles, os deuses são criaturas mudas e intocáveis, cheias de bondade e sabedoria, mas também dotadas de poder e de sentimento de vingança. Outros acreditam que a vida foi gerada por forças titânicas, misteriosas, mas palpáveis, que um dia serão reveladas e controladas pelo ser humano.

O que realmente seja, ou o que venha a ser a vida, tem pouca importância. O que interessa é aquilo que pensamos que somos, ou o que pensamos que sejam as coisas em nosso redor, e não o que elas sejam de fato. As pessoas mais educadas compreendem que a vida será sempre inexplicável. Aliás, a inexistência da vida, que se manifesta numa pedra jogada à beira da estrada, isso também é inexplicável. E o correr dos anos nos mostra que a pedra morta também está viva!

Levaremos pelo menos três milhões de anos até chegar a uma conclusão razoável do que seja isto, estar aqui, existindo, e isso é a eternidade.

Partimos em busca de comida porque as horas passam, nossos organismos consomem o que comemos, e já é hora de consumir novamente. Fazemos aniversário porque o girar dos astros gera as horas, o tempo anda, os anos correm, e no fim da corrida está o fim da vida. O que significa este “fim”, ninguém conseguiu dizer. Até agora, só conseguimos nomeá-lo!

Pretendemos fugir da morte indo ao encontro da vida, mas elas andam juntas, e num ponto distante se tocam. O caminho é o tempo, que se mostra sob o aspecto de “espaço” e de outras milhares de formas. Cada fato atrela-se a um segundo, um dia, uma década. Cada obra está sempre contida numa unidade de tempo, nestes casulos temporais onde vivemos, onde se formam borboletas e carunchos de todos os gêneros.

A humanidade é feita de tantos segmentos diferentes quantas são as espécies de insetos que habitam o planeta. Em cada quadra da cidade encontramos uma forma diferente de julgar, de amar, de andar e de estremecer. Filósofos e ditadores tentaram dar à humanidade um formato sólido, de comportamento previsível, e todos falharam. Nossa espécie é vaporosa, feito água que volatiliza na superfície dos lagos, que sobe e se adensa, formando grossas e maduras nuvens, que dia menos dia caem sobre a terra em forma de mansa garoa ou furiosa tempestade. O gênero humano é como um oceano, que forma outros oceanos, num ciclo infinito, cada vez mais volumoso, cada dia mais rico de histórias.

A cada um de nós foi dado um jeito de perceber a passagem do tempo. Para mim, os anos parecem estradas que se perdem no horizonte, avançando em movimentos parabólicos. As décadas instauram o turbilhão das cidades, geram tempestades no deserto, volumosas massas que descambam pelas encostas das montanhas, formando grandes rios e lagos.

A vida fora do homem está isenta das horas, por isso é quieta, serena e absoluta. A vida externa ao pensamento humano espalha-se como uma brisa silenciosa, criando e destruindo mundos. O que vive além do homem é imenso, estupendo, um gigantesco conjunto de criaturas e estruturas que parecem saber muito bem de si, mas que permanecem indiferentes ao labor e às mesquinharias humanas.

O universo das palavras encerra-se num universo próximo.
Para além dele, o silêncio dá todas as instruções.

Você passará muitas horas pensando na finitude da vida. Ficará atormentada ao descobrir que num determinado momento o fluxo será interrompido. Terá noites insones, pensando num meio de fugir a esse destino, mas todas as vezes deparará com a interrupção inevitável. Após anos de revolta, finalmente compreenderá que a vida individual é finita porque de outro modo a “vida” seria impossível. A cada dia, cada ano, a Natureza e a cultura humana irão trazendo para você o conhecimento de que a imortalidade seria uma coisa não somente absurda, mas patética e dolorosa.

Se as flores fossem eternas,
teriam as pétalas duras e cobertas de mofo.
A beleza das flores pertence à sua fluidez.

Num tempo infinito, nossos desejos perderiam todo significado, já que poderíamos saciá-los quando nos desse na veneta. Para a maioria de nós, o sabor que colhemos está sempre vinculado à sua urgência. Aliás, todas as atividades humanas (economia, política, arte, religião, etc) foram se desenvolvendo com um olho na vida, outro na morte. Se os homens não fossem mortais, as regras seriam completamente diferentes. É muito provável que não haveria regras! O sentimento de posse só faz sentido se você sabe que não terá tempo para adquirir, no futuro, o que está desejando agora. A competição entre humanos resulta do medo das sombras, onde o tempo reduziu-se ao máximo, onde a vida já não se pode expandir.

A vida imortal somente seria possível se aceitássemos a transformação da nossa consciência num outro tipo de consciência, ou noutra forma de vida, capaz de desejar o mundo com novos sentidos. Mas ninguém quer perder-se de si mesmo, embora tenhamos de passar necessariamente por esse ponto.

Por outro lado, a descoberta da vida mortal é tremendamente doída. Estar aqui para depois não estar! Isso é injusto, cruel, mas verdadeiro. A existência é o decreto de seu próprio extermínio.

A humanidade precisa tirar as vendas, e olhar, mesmo que lhe inspire terror, a escuridão e a geleira do cosmo. E mergulhada no negro profundo, enxergar com os olhos bem abertos esta vasta esfera, este imenso organismo vivo e vibrante, onde tudo acontece e de onde toda consciência foi gerada.

A Natureza mostrou-me, através dos sonhos, que a minha morte faz parte da receita, como um ingrediente essencial à confecção do bolo. Também me apresentou parte da solução do enigma que envolve a vida e a morte, mostrando como a consciência precisa desintegrar-se para ser sobrevivente.

Os livros me apontaram a imortalidade como o maior castigo que um homem poderia receber. Viver mais de cem anos com a forma humana significaria vagar sobre a Terra feito condenado, sem objetivo, sem desejos, sem destino. Algo como um braço amortecido, quando acordamos de manhã. Ele não somente não pode mover-se ou sentir qualquer coisa, como na verdade não quer. Está morto, estando vivo.

Haverá um momento em que deixarei esta vida, mas a vida, estranhamente, continuará. Você estará aqui, fazendo suas coisas, buscando seus prazeres, sanando suas dúvidas. E haverá um momento em que você também partirá, deixando para trás todos os seus sonhos, esperanças, alegrias. Em que instante isso se dará? Em que circunstâncias? Eu gostaria de saber, mas também sei que esse conhecimento seria insuportável. Qualquer um de nós que soubesse o exato momento de sua morte, teria uma vida terrível. É a ignorância que nos permite viver, lutar e amar.

Acredito na vida, e sei muito bem colher a minha seiva. Mas passei uma certa fronteira inevitável, onde a percepção da morte torna-se um assunto pessoal inadiável. Estou impregnado dela, como também estou cheio de vida.

A cada dia cresce entre os estudiosos a consciência de que vivemos num vasto campo de maravilhas, de pequenos milagres verdadeiros e palpáveis. Temos cinco sentidos para descobrir o mundo, e possuímos uma mente gelatinosa, capaz de nos levar a outros mundos, onde as maravilhas e os sentidos são outros. Nascemos envolvidos numa abóbada azul, formada pelo oxigênio que entra em nossos corpos, que nos alimenta e nos faz vivos. Saboreamos os frutos, que nos dão o sabor e a saciedade, e são eles que nos mantêm em pé. Produzimos música e são os nossos próprios ouvidos que a desfrutam. Fabricamos perfumes para nosso próprio deleite.

Nossos semelhantes costumam falar de um mitológico “maná”, que descia dos céus nos tempos bíblicos, que alimentava a humanidade, e por ele ainda suspiram. Sentem-se mergulhados na desgraça, abandonados por Deus, que nos tempos antigos fazia tantos milagres! Não percebem que o maná continua caindo, em forma de raios solares, de gotas brilhantes que molham a Terra. Tampouco compreendem que o maná está debaixo de seus pés. Basta soltar as sementes e regá-las, e em poucos dias o maná se transforma numas coisas extraordinárias chamadas ervas, arbustos, morangos, milho, leitões!

Quando passa a infância, as pessoas costumam perder sua capacidade de deslumbramento. Não conseguem admirar-se por nada, senão por sua incrível capacidade de ganhar dinheiro, de causar ciúmes, de fazer jogos, onde disputam, esquartejam-se e matam-se. A vida então se torna cinzenta, cruel, azeda e besta.

crônica de chico guil, no diário da jade, publicada na carta capital on line.