Thursday, December 25, 2008

se dependesse de nós o que seria do outro?

Diferentes ou iguais; somos iguais somente na diferença. Ser diferente é constituir-se. Sou eu porque não sou outro, como diria o poeta, sou qualquer coisa de intermedium. Pensar a alteridade é salutar, afinal, já nos disse a psicanálise: criamos nossa identidade a partir do registro das diferenças, das nossas e dos outros; precisamos deles para "escrever-nos" por contraste ou disjunção, junção de escolhas e ressonâncias. (isabela monken veloso)

Thursday, December 18, 2008

o que a redentora fez de ti ?

terra revolvida, consciências entorpecidas e biografia reinventada. é próprio do rito agir sobre a realidade intervindo na representação que as pessoas fazem dela. a isso se chama eficácia simbólica. capacidade de reescrever a história, muitas vezes ao preço de falsificá-la com a anuência de seus, outrora, críticos severos. esmaecidos os princípios e calados os dissensos, os poderosos nunca morrem sós. levam com eles o silêncio dos que se diziam inocentes(gilson caroni filho)

Friday, December 14, 2007

vá à luta

não me sinto particularmente importante. a data (amanhã, sabado) nao é importante. a idade nao é importante. o tempo nao é importante. a arquitetura nao é importante. o que nós criamos não é importante. somos muito insignificantes. o que é importante é ser tranquilo e otimista - e levantar todas as manhas para o mesmo de sempre - a luta.
oscar niemeyer, às vesperas de completar cem anos.

Friday, November 16, 2007

vontade de poder

temos a arte para não morrermos da verdade. nietzsche.

Sunday, October 21, 2007

o amor é lindo

estou apaixonado pela mesma mulher há quarenta anos. se minha esposa descobrir, vai me matar.
henry youngman

Saturday, October 13, 2007

veja bem

a única coisa em que acredito é que precisamos ter capacidade de destruir as opiniões contrárias, baseados em argumentos ou, senão, deixar que as opiniões se expressem. opinião que precisamos destruir na porrada é opinião que leva vantagem sobre nós. não é possível destruir as opiniões na porrada e é isso precisamente que mata todo o desenvolvimento da inteligência...che(guevara)

Wednesday, December 27, 2006

metal leve

paulo coelho é o bispo edir macedo da literatura.
josé mindlin.

Sunday, December 24, 2006

con hurras!

vamos a festejarlo, vengan todos
los inocentes
los damnificados
los que gritan de noche
los que sueñan de día
los que sufen el cuerpo
los que alojan fantasmas
los que pisan descalzos
los que blasfeman y arden
los pobres congelados
los que quieren a alguien
los que nunca se olvidan
vamos a festejarlo, vengan todos
el crápula se ha muerto
se acabo el alma negra
el ladrón
el cochino
se acabo para siembre
hurra
que vengan todos, vamos a festejarlo
a no decir
la muerte
siempre lo borra todo
todo lo purifica
cualquier día
la muerte no borra nada
quedan
siempre las cicatrices
hurra
murió el cretino, vamos a festejarlo
a no llorar de vicio
que lloren sus iguales
y se traguen sus lágrimas

se acabo el monstruo prócer
se acabo para siempre
vamos a festejarlo
a no ponernos tibios
a no creer que este
es un muerto cualquiera
vamos a festejarlo, a no volvernos flojos
a no olvidar que este
es un muerto de mierda.

(obituario com hurras, do poeta uruguaio mario benedetti a propósito da morte de reagan; e por tabela dedicado a galtieri, pinochet, fidel?



Sunday, December 03, 2006

equívoco acertado

o jornalismo é uma profissão cujo objetivo "filosófico" é trazer à tona certas coisas que as pessoas não sabem. tem um compromisso com a verdade. agora, qual é o objetivo "filosófico" da publicidade? a mentira. é mentir sobre o sabonete, a maionese, a margarina, o político. fazer anúncio sobre seguro médico é uma ofensa. fico envergonhado ao ver que os bancos estão tomando dinheiro dos velhinhos e os atores da globo anunciam isso. os velhinhos pegam o dinheiro e pagam juro antecipado! é uma indecência. e por que o estado tem de fazer publicidade? o que o ministério da saúde precisa é divulgar o calendário das vacinas, coisas assim. não tenho respeito pela publicidade. os caras ficam aí se gabando de que sabem fazer slogans e passam anos para criar coisas como "coca-cola. é isso aí". de quantos slogans precisam? faço dez agora. millor fernandes

Tuesday, November 28, 2006

da civilizatória sanha

"Os europeus descobriram na América uma porção de homens descobertos e logo trataram de cobri-los".

Desejei conhecer o Mundo Novo, repleto de liberdade, dádivas e encantamento. Mas o Mundo Velho está no meu sangue, carrega-me feito um rio sujo e lamacento. Nas pequenas ações cotidianas me policio para evitar as manifestações dessa maldição européia. Mas nas próprias expressões da fala e da escrita percebo a ansiosa herança de meus ancestrais.

Quando falam da Europa e de seu conforto material, e eu aqui na selva catando moedas para pagar a conta de água e luz, sinto-me quase livre dessa onda negra que varreu continentes, devastou civilizações e jamais pediu perdão.

Como pode um ser almejar a paz e o conforto antes de alcançar o perdão de seus oprimidos e desgraçados? Não pode, é o que dizem as fibras do meu insólito entendimento. A Europa e suas adjacências permanecem falando de castigo e diabos, apoiando tiranias, como nos velhos tempos, adorando supostos representantes do deus da humildade trajados de seda e incrustados de pedrarias, enquanto no mundo selvagem os pássaros cantam todas as manhãs, livres de Jeová e das pregações insanas de seus profetas.

A Natureza é dura e cruel para com os atores do teatro humano. Ela quer, e vai tirar nossas máscaras, apesar da fanática resistência. Um siriri cantando livre, sentado no tronco seco da guabiroba, nu e desprovido de toda crença e de toda posse, é uma ofensa para o espírito europeu disseminado nessas plagas. O polonês e o italiano que correm em meu sangue invejam a majestade despojada do siriri.

Vejo nos filmes como se amarravam em roupas os nossos ancestrais, a cada século mais amarfanhados para esconder as vergonhas, e ainda hoje nos amarramos em novos e sofisticados andrajos. Criaturas amaldiçoadas, talvez, pelos nossos próprios pecados seculares, e a cada ano promovemos a queda e o sofrimento de novos inocentes. Orgulhamo-nos de nossas conquistas, do domínio sobre os que não sabiam brigar e das vastidões que devastamos.

Olhamos lá atrás, na descoberta das Américas, nossos ancestrais furiosos sedentos de glória. Mas olhem Bush, em que difere do velho europeu conquistador? Por que a Europa apoiou as sandices desse novo Hitler? Porque ele representa o que somos, a nossa européia incapacidade de buscar conforto sem derramamento de sangue. Entregamo-nos à velha insana sede de conquista, à realização material sustentada em esqueletos. Olhem as grandes corporações e digam onde está a diferença com os velhos feudos europeus, sustentados em mentiras, mitos e escravidão!

A civilização ocidental não se compreendeu, não pediu perdão por seus crimes e não se perdoou. Assenta-se em conquistas materiais, feito uma galinha alucinada tentando chocar um ovo gorado. Ela quer, a todo custo, gerar o Homem Novo, mas ele não sairá deste ninho. Não sairá de um tubo de ensaio, muito menos de uma enciclopédia. A Natureza aguarda o sincero e honesto pedido de perdão, antes de conceder o reencontro do conhecimento humano com a verdade.

Podemos esperar a re-ligação, a religião da verdade, para um tempo futuro, quando esta adolescente humanidade estiver madura e surrada o bastante para saber-se limitada às margens da Deusa Natureza.

admirável mundo velho, do chico guil, pra carta capital

Sunday, November 05, 2006

slogan definitivo

há uma morte no seu futuro. millor fernandes.

Monday, October 30, 2006

camisa de força ou correa na lucidez

primeiro a gente enlouquece e depois vê no que dá.
thomaz souto correa

Saturday, October 21, 2006

aos que virão depois de nós

Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez,
Uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses,
Quando falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
Já está então inacessível aos amigos
Que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nada do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Ma como é que posso comer e beber,
Se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
Se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.

Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Manter-se afastado dos problemas do mundo
E sem medo passar o tempo que se tem para viver na terra;
Seguir seu caminho sem violência,
Pagar o mal com o bem,
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!

II

Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
Quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo da revolta
E me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
Deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atenção
E não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a terra.

III

Vocês, que vão emergir das ondas
Em que nós perecemos, pensem,
Quando falarem das nossas fraquezas,
Nos tempos sombrios
De que vocês tiveram a sorte de escapar.

Nós existíamos através da luta de classes,
Mudando mais seguidamente de países que de sapatos, desesperados!
Quando só havia injustiça e não havia revolta.

Nós sabemos:
O ódio contra a baixeza
Também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
Faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
Que queríamos preparar o caminho para a amizade,
Não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
Em que o homem seja amigo do homem,
Pensem em nós
Com um pouco de compreensão.








Bertold Brecht

(originalmente publicado no cemgrauscelsius.blogspot.com em 21 de fevereiro de 2006)

Monday, October 16, 2006

mas que filho da puta!

o pequeno filho-da-puta
é sempre
um pequeno filho-da-puta;
mas não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho-da-puta.
no entanto, há
filhos-da-puta
que nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho-da-puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o pequeno filho-da-puta.
o pequeno
filho-da-puta
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno filho-da-puta.
no entanto,
o pequeno filho-da-puta
tem orgulho em ser
o pequeno filho-da-puta.
todos os grandes filhos-da-puta
são reproduções em
ponto grande
do pequeno filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
dentro do pequeno filho-da-puta
estão em ideia
todos os grandes filhos-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
tudo o que é mau
para o pequeno
é mau para o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
o pequeno filho-da-puta
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o pequeno filho-da-puta.
é o pequeno
filho-da-puta
que dá ao grande
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
de resto,
o pequeno filho-da-puta vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande filho-da-puta:
o pequeno filho-da-puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja, o pequeno filho-da-puta.

II
o grande filho-da-puta
também em certos casos começa
por ser
um pequeno filho-da-puta,
e não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
no entanto, há
filhos-da-puta
que já nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho-da-puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o grande filho-da-puta.
o grande
filho-da-puta
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho-da-puta.
por isso
o grande filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o grande filho-da-puta.
todos
os pequenos filhos-da-puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
dentro do
grande filho-da-puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
o grande filho-da-puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho-da-puta.
é o grande
filho-da-puta
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o pequeno filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
de resto,
o grande filho-da-puta vê
com bons olhos
a multiplicação
do pequeno filho-da-puta:
o grande filho-da-puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja, o grande filho-da-puta.

ditirâmbica do pequeno e do grande filho da puta do alberto pimenta

Sunday, October 08, 2006

de cu pra cima

o que os presidentes não fazem com suas esposas, acabam fazendo com o país.
mel brooks

Saturday, October 07, 2006

como somos infelizes

infeliz do país que necessita de heróis.
bertold brecht

Sunday, October 01, 2006

corpo de delito ou intenções de voto

qualquer coisa obrigada, seja tomar lambedor, gemada ou pau no cu, fere o exercício, já agora pseudo-democrático de toda e qualquer democracia pseuda, do chamado voto livre.

enquanto nos obrigarem a fazer aquilo que é por dever de consciência nossa obrigação, ou não, não se pode pode falar em eleições livres, em pátrias livres, em espíritos livres, em suma: em homens(e mulheres) livres.

Friday, September 29, 2006

quanto anos mesmo de perdão ?

completamente falso o entendimento de que há uma superpopulação de bandidos na cadeia. a superpopulação anda cá fora.

Sunday, September 24, 2006

palavras do senhor marquês

…. que vejo eu no deus deste culto infame senão um ser inconsequente e bárbaro, que hoje cria um mundo de cuja construção amanhã se arrepende ? que vejo eu nele senão um ser fraco, incapaz de fazer o homem dobrar-se para o lado que ele quer ? esta criatura, apesar da vinda dele, domina-o; pode ofendê-lo e por isso merecer suplícios eternos! que ser tão fraco é esse deus! então ele pôde criar tudo o que vemos e lhe é impossível formar um homem conforme a sua vontade ? mas, responder-me-eis, se o tivesse criado assim, o homem não teria mérito? que coisa insípida! que necessidade há que o homem tenha mérito diante de deus? se o tivesse formado totalmente bom, aquele jamais poderia praticar o mal e só então é que seria obra digna de deus. deixar ao homem a escolha é tentá-lo. ora, deus, pela sua presciência infinita sabia bem o que daí ia resultar. a partir desse momento, é portanto por prazer que condena à perdição a própria criatura que formou. que deus horrível, esse! que monstro, que celerado, tão digno do nosso ódio e da nossa implacável vingança! todavia, mal contente com tão sublime ação, afoga o homem para depois o converter: fá-lo arder, amaldiçoa-o. nada disto o modifica.


sade, in a filosofia na alcova ou os preceptores morais, nos anos 80, em edição da gama.

Friday, September 22, 2006

manuel bandeira

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
Não quero mais saber do lirismo que não é libertação

(viagem ao âmago da palavra)